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Artigo
O PT e as Farc
Nº edição: 545 | 13.FEV.08 - 10:00 | Atualizado em 05.Feb.10 - 13:49
Em 1996, a empreiteira Andrade Gutierrez construía uma grande hidrelétrica nos Andes quando dois de seus engenheiros, Eduardo Batista e Demétrio Duarte, foram seqüestrados pelas Farc
por Leonardo Atuch
Em 1996, a empreiteira Andrade Gutierrez construía uma grande hidrelétrica nos Andes quando dois de seus engenheiros, Eduardo Batista e Demétrio Duarte, foram seqüestrados pelas Farc – as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. A empresa acionou o Itamaraty, tudo foi tentado pelas vias diplomáticas, mas os dois brasileiros continuaram em poder dos guerrilheiros durante 207 dias. Só saíram do cativeiro depois que um novo ator entrou em cena: o Partido dos Trabalhadores. Por meio de “negociadores” indicados pelo PT, a Andrade Gutierrez pagou um resgate milionário, o dinheiro foi transportado em malas para a selva amazônica e os engenheiros regressaram ao Brasil. Eis a ironia da história: em pleno governo FHC, quem solucionou um delicado caso de seqüestro político foi o principal partido oposicionista.
Essa história foi relatada a mim, diretamente, por um dos mais graduados diretores da Andrade Gutierrez – a única condição era o anonimato. Do relato do caso, ficaram algumas dúvidas: o dinheiro ficou todo com os guerrilheiros ou foi repartido com o PT? O partido negociava o resgate por razões somente humanitárias ou também comerciais? São perguntas que dificilmente serão respondidas. Anos mais tarde, na campanha presidencial de 2002, um dossiê secreto da Agência Brasileira de Inteligência, a Abin, insinuou a existência de uma doação de R$ 5 milhões das Farc para as campanhas eleitorais do PT – o caso jamais foi confirmado, mas a suspeita pairou no ar. De todo modo, a hipótese de ligação entre o PT e a guerrilha também foi reforçada pelo fato de que os dois grupos são fundadores do Foro de São Paulo, uma organização criada em 1990 para unir as esquerdas latino-americanas, cujo maior ideólogo é Marco Aurélio Garcia, assessor especial do presidente Lula para temas internacionais.
Essa proximidade entre o PT e as Farc, que teve no episódio dos engenheiros apenas um entre vários exemplos, fornece algumas pistas sobre a tibieza do Itamaraty diante da crise atual entre Colômbia, Equador e Venezuela. Ao mesmo tempo que exigiu mais um pedido formal de desculpas do governo colombiano ao Equador, o chanceler Celso Amorim não pronunciou uma só palavra condenando a aproximação de governos sul-americanos com as Farc. Talvez porque saiba que essa ponte entre a esquerda latino- americana e a guerrilha colombiana não seja transitada apenas por Hugo Chávez, da Venezuela, e Rafael Correa, do Equador – ela já foi cruzada, inúmeras vezes, por lideranças históricas do PT.
Alguns poderão dizer que o Foro de São Paulo é apenas um canal legítimo de debate político entre as esquerdas. Mas, se é essa a finalidade, o “fórum” jamais deveria ter admitido o ingresso de uma organização com oito mil integrantes armados e que promove o seqüestro, a tortura e a chantagem como instrumentos de negociação política – e também de arrecadação financeira.
A história dos dois brasileiros seqüestrados na selva também teve seus lances curiosos. Logo que chegaram ao cativeiro, eles receberam dos guerrilheiros o livro Notícias de um Seqüestro, escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez, para que se acostumassem àquela situação tão penosa.
Quando a Andrade Gutierrez negociou com o PT a libertação de seus reféns, não havia muita escolha – todos os canais institucionais já haviam fracassado. Desta vez, o governo colombiano, de Álvaro Uribe, fez uma aposta muito mais arriscada. Atacou e matou 17 guerrilheiros, que são parte de uma organização que ainda mantém 700 reféns – entre eles, a franco-colombiana Ingrid Betancourt. Depois dessa escalada de radicalização no continente, é possível que muitos dos prisioneiros estejam correndo mais risco do que antes.
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