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O fim do calvário externo

Nº edição: 543 | 27.FEV.08 - 10:00 | Atualizado em 05.Feb.10 - 10:23

Por Octavio Costa

por Tom Cardoso

Tudo começou no Primeiro Império, quando Dom Pedro I pediu empréstimos para pagar dívidas da ex-colônia. Foi ali, em 1824, que o Brasil iníciou o calvário do endividamento externo. Recorreu, então, a casas bancárias de Londres, mas o leque de credores se ampliou durante a República até a primeira moratória em 1931. No século 20, o País viveu de pires na mão, em meio a duras negociações. Só escapou do ciclo vicioso na virada ao ingressar no Terceiro Milênio. Graças à solidez dos fundamentos da economia, acumulou reservas internacionais e honrou seus compromissos. Na semana passada, o Brasil pôde, finalmente, comemorar um feito histórico: as reservas superaram a dívida externa em US$ 4 bilhões. E, depois de percorrer uma tortuosa estrada, passar de devedor a credor.

A notícia tem um peso extraordinário. Gerações inteiras de brasileiros testemunharam cenas, às vezes humilhantes, que envolveram o tenso diálogo com países desenvolvidos e instituições de crédito multilaterais. Até hoje, mexe com os brios nacionalistas a foto de Juscelino Kubitschek estendendo a mão para Foster Dulles, secretário de Estado americano, em 1958, como se pedisse esmola. Também provocaram forte impacto as freqüentes chegadas ao País de missões do FMI, para examinar as contas nacionais. A chilena Ana Maria Jul, que chefiou missões do Fundo entre 1982 e 1985, tornouse persona non grata da opinião pública e foi alvo da sátira de blocos carnavalescos, em Brasília e no Rio. Fazia parte de sua tarefa verificar se as rígidas metas acertadas com o FMI estavam sendo cumpridas. “Nunca trabalhei num país tão tenso quanto o Brasil daqueles anos”, contou Ana Maria décadas depois.

Do receituário ortodoxo do FMI constavam crédito apertado, juros altos e cortes nos gastos públicos. Ou seja, economia andando a meio vapor, até pôr a casa em ordem. O Fundo comportava-se como um bedel exigente e as reações internas eram previsíveis. Nas ruas, gritava-se “Fora FMI!” E nos partidos de esquerda proliferaram as propostas mirabolantes. A mais delirante, defendida pelo PT do metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva, pregava o calote da dívida e o rompimento das relações com o FMI, como se o Brasil pudesse viver à margem da comunidade financeira internacional. Felizmente buscou-se a alternativa madura e correta. Primeiro, foi tirada a corda do pescoço, com o alongamento da dívida, numa negociação encabeçada por Pedro Malan. Depois, graças ao Plano Real, dominou-se a inflação. E, para arrematar, tratou-se de dar à economia fundamentos mais sólidos, com metas anuais de inflação e superávit fiscal. Aqui, vai um elogio. Muitos acreditavam que, com o PT no poder, a política de metas seria abandonada, em nome de bandeiras desenvolvimentistas. O presidente Lula, porém, decidiu seguir à risca a trilha aberta por Malan e Armínio Fraga. A economia respondeu à altura. E Lula, hoje, é tão popular quanto no início de seu primeiro mandato.

A economia apresenta fundamentos sólidos como nunca. O real dá demonstrações diárias de força, permitindo que empresas brasileiras estendam seus tentáculos aos Estados Unidos e à Europa. São multinacionais verde-amarelas. A estabilidade é tamanha que se aproxima o dia em que o País será promovido ao status de “investment grade”. Com isso, ficará apto a atrair investimentos estrangeiros em volume semelhante ao da China. Não fosse a crise do mercado imobiliário nos Estados Unidos, haveria condições de crescer acima dos atuais 5%. Um dos raros pontos ainda vulneráveis é a dívida pública interna, que alcança 51% do Produto Interno Bruto – em países desenvolvidos não passa de 30%. Alguns críticos afirmam que a dívida externa foi trocada pela dívida interna. O que é um exagero. A dívida interna tem a ver, sim, com taxas de juros e gastos públicos, fatores que são acompanhados com sintonia fina pelo Banco Central e pela Fazenda. Merecem ajustes, porém não chegam a arranhar o mérito do governo Lula na condução da economia. Mas, já que o Brasil passou de devedor a credor externo, que tal estender o padrão de Primeiro Mundo também à saúde e à educação?

 



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