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A picanha e a segurança nacional

Nº edição: 542 | 20.FEV.08 - 10:00 | Atualizado em 04.Feb.10 - 17:33

O escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784) ensinou seus leitores a desconfiar daqueles que usam expressões como "patriotismo" e "interesse nacional" para justificar decisões políticas ou econômicas

por Leonardo Atuch

O escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784) ensinou seus leitores a desconfiar daqueles que usam expressões como "patriotismo" e "interesse nacional" para justificar decisões políticas ou econômicas. Numa frase famosa, Johnson disse que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Se isso é verdade, o que se poderá dizer do conceito de "segurança nacional"? Foi com base nessa abstração que Getúlio Vargas criou uma lei, em 1935, para perseguir e esmagar seus opositores - entre eles, Luís Carlos Prestes e sua Aliança Libertadora Nacional. A doutrina da segurança nacional também foi lançada pelo ex-presidente americano Harry Truman, no pós-guerra, para legitimar qualquer intervenção externa que visasse "proteger" governos ameaçados pelo comunismo. Golpes de Estado? Tudo bem, desde que em nome de uma boa causa. Tempos depois, Richard Nixon se valeu da "doutrina" para grampear adversários políticos - a conseqüência foi o escândalo de Watergate, que o levou à renúncia. Como não poderia deixar de ser, a ditadura militar brasileira também teve a sua Lei de Segurança Nacional. Datada de 15 de março de 1967, ela foi usada para perseguir "subversivos", colocando no mesmo saco manifestações políticas e crimes comuns.

Era de esperar, portanto, que, com o passar do tempo e o avanço da civilização, o conceito de segurança nacional não fosse mais retirado do armário. Principalmente porque antigos combatentes, alguns até perseguidos por regimes autoritários, chegaram ao poder. No entanto, na última Quarta-Feira de Cinzas, o conceito de segurança da Nação foi novamente invocado. Só que, desta vez, o que estaria expondo o Brasil ao perigo não era mais o "ouro de Moscou" nem a ideologia cubana. A ameaça real viria das churrasqueiras do Palácio da Alvorada, das piscinas de Florianópolis ou mesmo dos bares de São Bernardo do Campo. Se o povo vier a conhecer as despesas dos cartões corporativos da Presidência com cloro, picanha e caipirinha, a segurança do País estará em risco. Ao menos é o que se podia concluir da entrevista concedida logo após o Carnaval pelos ministros Franklin Martins (ex-guerrilheiro "Valdir") e Dilma Rousseff (exguerrilheira "Wanda"). De acordo com os ministros, gastos que envolvem a segurança do presidente são sigilosos - e, portanto, não podem ser revelados. Ao mesmo tempo, eles diziam que o governo apoiará uma CPI. Ou seja: pode-se investigar tudo, menos o que realmente interessa.

Curiosamente, os dois ex-guerrilheiros estavam sentados ao lado de um general. Era Jorge Félix, chefe do gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, que soltou uma pérola. "Quanto maior a transparência, menor a segurança", era o seu axioma. A tese dos três é curiosa. Dizem eles que uma informação como o posto de gasolina usado para abastecer os carros da Presidência deve ser classificada como "top secret". Se ela vier a ser pública, será mais fácil planejar um eventual atentado. Argumento estranho, quando, todos os dias, o próprio governo divulga a agenda completa do presidente - incluindo os compromissos externos, em que Lula, não raramente, mistura-se com o povão.

Só faltou explicar à trinca que o mundo civilizado caminha em outra direção. Não há governante de país democrático que não tenha que prestar contas dos seus atos. Lá fora, a palavra de ordem da gestão pública é accountability. Isso significa que cada centavo gasto tem de ter uma finalidade republicana e, mais que isso, que não pode haver segredo quando o que está em jogo é o dinheiro dos contribuintes. Lamentável é constatar que, no Brasil de hoje, ainda há muita gente confundindo segurança do governo com segurança da Nação.

 



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