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Lucro e preconceito

Nº edição: 541 | 13.FEV.08 - 10:00 | Atualizado em 04.Feb.10 - 13:45

Em um país com tantas desigualdades sociais, os lucros exorbitantes das empresas geralmente causam espécie ao respeitável público

por Milton Gamez

Em um país com tantas desigualdades sociais, os lucros exorbitantes das empresas geralmente causam espécie ao respeitável público. Pior ainda se os cifrões forem exibidos por banqueiros. E o que não falta, por aqui, são balanços exuberantes – indecentes até, dependendo dos olhos de quem os vê. O Bradesco, maior grupo financeiro privado do País, lucrou R$ 8 bilhões em 2007. O Santander, quase R$ 2 bilhões. O Itaú, que divulga os resultados na terça-feira 12, certamente exibirá outra cifra astronômica. Ano após ano, o Brasil consagra-se como o paraíso da banca, onde se praticam os juros mais altos do mundo (com a exceção, às vezes, da Turquia) e as tarifas bancárias pesam no bolso dos correntistas e investidores. Existe coisa pior? Sim, existe.

 

Pior do que bancos saudáveis e lucrativos são bancos quebrados. Quando os banqueiros vão à lona, todos que dependem de seus serviços sofrem as conseqüências. Clientes, funcionários, empresários, governos e acionistas ficam a ver navios, com investimentos que viram pó e sem perspectivas de recuperar algum a curto prazo. Não fosse o seguro de depósito bancário, que cobre até R$ 60 mil por pessoa, e a forte concentração de renda no País, o estrago seria ainda maior. Não fossem as operações de salvamento promovidas pelo Banco Central, que repassou os negócios de alguns grandes bancos para concorrentes nacionais e estrangeiros, milhões de brasileiros, empregados ou patrões, teriam quebrado junto com os famigerados Bamerindus, Nacional e Econômico. Menos afortunados, milhares de investidores amargaram prejuízos com aplicações em instituições menores, como o Banco Santos.

Um sistema bancário forte é condição indispensável para o desenvolvimento. Um mercado de capitais pujante, também. E um não existe sem o outro. Que o digam os Estados Unidos. O nervosismo das bolsas mundiais nas últimas semanas tem sido alimentado pelos temores de uma nova recessão na economia americana. Por trás dessa crise está o estouro da bolha imobiliária. E esta caiu como uma bomba no colo dos banqueiros do Norte (e de milhões de acionistas), implodindo resultados como não se via há muitas décadas. Bancos americanos e europeus podem perder mais de US$ 250 bilhões com a crise dos empréstimos de alto risco. Até onde vai o buraco, ninguém sabe. O Citigroup, sozinho, assumiu prejuízos de US$ 18 bilhões somente com o subprime. A reação do Federal Reserve, ao cortar os juros para 3% ao ano, indica que a situação é gravíssima.

Numa hora dessas, onde é melhor guardar o dinheiro do dia-a-dia e a poupança da vida toda? No Citibank ou no Bradesco? No francês Société Générale, que quase quebrou diante de operações de € 50 bilhões nos mercados futuros, ou no espanhol Santander, que fechou 2007 com lucro de € 2,5 bilhões? Em quem confiar, num banco que dá lucros indecentes ou em outro que apresenta prejuízos abomináveis? Diz-se nos circuitos financeiros internacionais que alguns gigantes bancários são muito grandes para quebrar. Antes do tombo final, ou o governo os socorre ou força a venda/doação para outra instituição mais saudável. Faz sentido: uma crise sistêmica seria o caos para a economia como um todo e mataria as pretensões eleitorais de qualquer governante de plantão. Mesmo assim, quem gostaria de ser o último a bater na porta de um banco vitimado por uma corrida bancária? Ninguém. Nem mesmo os que criticam os lucros exorbitantes dos bancos onde têm conta. Nessa hora, o preconceito sai de cena.

Felizmente, para a economia brasileira, os grandes bancos esbanjam saúde financeira. É um dos fatores positivos para o País em meio às turbulências globais. A qualidade do lucro faz toda a diferença. Até pouco tempo atrás, os bancos ganhavam muito mais com a inflação, aplicando o dinheiro dos clientes e os recursos em trânsito em títulos públicos. Como se apropriavam de grande parte dos rendimentos, viviam do chamado ganho fácil. Hoje, para darem gordos retornos aos acionistas, os banqueiros têm de emprestar cada vez mais dinheiro, correr cada vez mais riscos. É verdade que existem abusos. E os juros reais elevados, que decorrem da política monetária do Banco Central, amplificam os riscos e os lucros dos bancos. Quando baixarem, somente os mais eficientes sobreviverão. A maior concorrência, quem sabe, reduzirá a cobrança de taxas e tarifas. E os lucros astronômicos não soarão tão infames como hoje.

 



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