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À sombra do general Geisel

Nº edição: 540 | 06.FEV.08 - 10:00 | Atualizado em 07.Feb.12 - 17:24

Em 1974, quando o general Ernesto Geisel chegou à Presidência da República, a mineira Dilma Rousseff mal completara 27 anos, mas já tinha um vasto currículo

por Leonardo Atuch

Em 1974, quando o general Ernesto Geisel chegou à Presidência da República, a mineira Dilma Rousseff mal completara 27 anos, mas já tinha um vasto currículo. Na clandestinidade, ela havia sido Estela, Luíza, Patrícia e Wanda. Com esses codinomes, Dilma participou da luta armada nos grupos revolucionários Colina e VAR-Palmares até ser presa, torturada e, finalmente, libertada, em 1973. Depois da experiência traumática, Dilma se mudou para Porto Alegre, começou a estudar economia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tentou reconstruir sua vida dentro da legalidade.

Anos difíceis aqueles. Na política, a distensão ainda era apenas uma promessa. Na economia, o “alemão” Geisel enfrentava uma conjuntura bem mais turva do que a do antecessor, Garrastazu Médici. Entre 1968 e 1973, o PIB brasileiro havia crescido, em média, 11,2% ao ano. Na era Geisel, o primeiro choque do petróleo já ameaçava a continuidade do “milagre econômico”. Em vez de ajustar a economia, o general radicalizou. Lançou o II Plano Nacional de Desenvolvimento, acentuou o caráter intervencionista do “modelo” e, com sua retórica nacionalista, avalizou grandes desastres, como uma lei de informática xenófoba e o Acordo Nuclear Brasil-Alemanha. No fim de seu governo, com a inflação em alta e a dívida externa nas alturas, já era possível pressentir uma moratória internacional.

Certo ou errado, o fato é que o nacionalismo exacerbado de Geisel fomentou uma aliança tácita entre os militares e boa parte da velha esquerda, especialmente aquela que já não parecia mais disposta a pegar em armas para lutar contra o regime. Muitos foram os antigos revolucionários que se encantaram com o planejamento econômico do general e a diplomacia terceiro-mundista – com ênfase na África e na América Latina – posta em prática pelo Itamaraty naquele período. Terá sido esse o caso da jovem economista Dilma Rousseff?

Da estudante de Porto Alegre, pouco se conhece. Sabese apenas que, no campo político, ela aderiu ao trabalhismo e cerrou fileiras no PDT, de Leonel Brizola. Profissionalmente, ela atuou na Fundação de Economia e Estatísticas do Rio Grande do Sul, mas foi demitida, em 1977, tachada como “comunista”. Dilma perdeu o emprego na era Geisel, mas é possível que o pensamento econômico daquela época tenha moldado sua visão de mundo. Ao menos é o que se percebe na Dilma que chegou ao poder. No Brasil de hoje, onde houver um grande negócio, ela estará presente. E sempre com argumentos nacionalistas à mão. O Brasil precisa de uma grande operadora de telefonia? Chamem a ministra Dilma. A Vale quer investir no Exterior? A Casa Civil não deixa. A Esso pretende deixar o País? Dilma dá ordens para a BR Distribuidora comprar, pagando o preço que for necessário.

Esse nacionalismo não é a única semelhança entre a ministra e o general. Os dois têm fama de autoritários, centralizadores e de acreditar que entendem de todos os assuntos sobre a face da Terra. Diz a lenda que a Lei das Sociedades Anônimas, editada em dezembro de 1976, teve capítulos redigidos pelo próprio Geisel. Ele não teria gostado da proposta que recebeu dos técnicos e fez algo à sua feição. Daí nasceu uma lei anacrônica, que, durante décadas, impediu o desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro. O modelo Geisel era aquele que usava o BNDES para eleger a burguesia nacional.

Dilma, até agora, foi responsável por dois grandes feitos do governo Lula: o leilão das estradas federais, que deve reduzir os pedágios no Brasil, e a concessão da hidrelétrica do rio Madeira, que poderá baratear o custo da energia. A ministra também possui outras qualidades. É laboriosa, assume riscos e enfrenta com coragem as adversidades. Mas, no campo dos negócios, há sinais perigosos no ar. Por que razão o governo pretende travar a expansão internacional da Vale? Por que se deve concentrar ainda mais o mercado nacional de combustíveis nas mãos de uma estatal? Dilma talvez tenha seus motivos. Mas o fantasma de Geisel que ronda a Casa Civil preocupa. De todos os presidentes, o “alemão” foi o mais intervencionista, deixando um legado desastroso. Dilma faria bem se não seguisse seu modelo.

 



  • em 07/02/2012 14:59:26

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    • em 07/02/2012 10:52:26

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      • em 07/02/2012 06:55:24

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        • em 07/02/2012 02:58:05

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          • em 06/02/2012 23:04:44

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