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A nova artimanha de Tanure

Depois de ingressar no conselho da Oi, o agressivo empresário, conhecido por sepultar marcas brasileiras, tenta obter o controle da operadora de telefonia

Crédito: Divulgação

Tanure aumenta a carga: Aluguel de ações, alianças com fundos estrangeiros e compra de fatia em rival para aumentar seu poder de fogo (Crédito: Divulgação)

A Oi, terceira maior operadora de telefonia do País, está no olho do pior furacão corporativo do Brasil. Com uma dívida de R$ 65,4 bilhões, a companhia vive uma ferrenha disputa societária e conflitos de interesse entre acionistas que querem evitar uma diluição exagerada de suas participações e credores que almejam a maior fatia possível da empresa. Seu futuro ficou ainda mais nebuloso nos últimos meses com as investidas de um empresário conhecido por um estilo de investidor abutre, que se aproveita de empresas em dificuldades para obter vantagens comerciais e financeiras, tira o que pode e, ao final, deixa a carcaça para credores, fornecedores e funcionários lesados.

Trata-se do controverso Nelson Tanure. Desde meados do ano passado, ele tenta assumir o controle da Oi. Hoje, o comando está nas garras da holding portuguesa Pharol, antiga Portugal Telecom, que possui 22,25% das ações ordinárias (com direito a voto). Não há dados oficiais sobre a participação de Tanure, mas, pelas contas de quem acompanha o caso, ele teria pelo menos 21% das ações ordinárias. Desse total, ele comprou 7% por meio de seu fundo, o Société Mondiale, e obteve o resto alugando papéis ou se aliando a grandes investidores. Sua fatia seria suficiente para disputar a gestão da empresa com os portugueses. E, para obter isso, a estratégia é a seguinte: vale tudo.

Futuro incerto: em recuperação judicial, operadora de telefonia é alvo de disputa entre credores e acionistas
Futuro incerto: em recuperação judicial, operadora de telefonia é alvo de disputa entre credores e acionistas (Crédito:Wilton Junior/AE)

O lance mais recente dessa queda de braço envolveu Tanure e o administrador espanhol Rafael Mora, homem de confiança dos portugueses, e ex-membro do Conselho de Administração da Oi. Mora é o mais ferrenho defensor da participação da Pharol na Oi, e opõe-se radicalmente às propostas de Tanure. Não convide os dois para a mesma assembleia. Eles se estranharam em uma reunião do conselho, em outubro passado. Segundo relatos, o brasileiro teria esmurrado a mesa e esbravejado, servindo-se de palavras pouco educadas, dizendo que quem mandava lá era ele.

Mora também teria esmurrado a mesa e repetido a frase. Tanure teria, então, se levantado e partido em direção a Mora. A turma do deixa-disso interveio antes que a disputa se tornasse física. Meses depois, Mora desligou-se do conselho no dia 8 de março, um dia após ter se demitido da Pharol. A elevação de tom surpreendeu alguns executivos, uma vez que, um mês antes do bate-boca, Tanure e os portugueses haviam trocado juras de amor. O Société Mondiale havia selado um acordo, pelo qual se comprometia a não processar a Pharol pelos erros do passado. Em 2014, a então Portugal Telecom tentou criar uma empresa transatlântica por meio de uma fusão com a Oi.

Mal saiu do Tejo, a caravela naufragou quando se descobriu que a Portugal Telecom havia feito um empréstimo ao falido Grupo Espírito Santo, o que resultou em um rombo de € 897 milhões (R$ 3 bilhões). A peraltice lesou os acionistas, mas Tanure prometeu não levar o caso à Justiça, como é de seu feitio, e obteve uma vitória estratégica. Em troca da paz, o empresário colocou pessoas de confiança no conselho da Oi. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) vetou sua própria indicação para conselheiro titular independente e ele entrou como suplente, ao lado de Blener Braga Cardoso Mayhew.

Para conselheiros titulares, Tanure indicou o ex-ministro das Comunicações Hélio Costa e o ex-presidente do BNDES Demian Fiocca. Todos assumiram seus postos em janeiro deste ano, após o aval do regulador. O que ninguém esperava era a saída de Mora, com quem Tanure se estranhou. Questionado pela DINHEIRO sobre como será a escolha do sucessor de Mora no conselho da Oi, Juarez Quadros, presidente da Anatel, afirmou que a nomeação é de responsabilidade da Pharol e não depende da anuência da agência. Procurada, a Pharol afirmou que o suplente João Ribeiro já se encarregou das atribuições de Mora. Depois de fazer sua primeira vítima na Oi, comenta-se no mercado que Tanure estaria alugando ações da empresa, via Société Mondiale, para elevar seu poder de fogo na assembleia geral de acionistas, que ocorrerá em 28 de abril.

Pediu pra sair: Rafael Mora se desligou da Pharol e do conselho da Oi, depois de brigar com Tanure, que comprou ações da holding portuguesa
Pediu pra sair: Rafael Mora se desligou da Pharol e do conselho da Oi, depois de brigar com Tanure, que comprou ações da holding portuguesa (Crédito:Paulo Spranger / Global Imagens)

Segundo o jornal Valor Econômico, o Société Mondiale teria alugado 15,58 milhões de ações da operadora, o que representa 2,3% de seu capital votante, em novembro passado. Tanure também cortejou a associação de acionistas minoritários da Oi, a Aidmin, que afirma ter 5% das ações da tele, e chegou a sinalizar para o grupo que apoiaria uma ação na Justiça contra os portugueses, pedindo ressarcimento pelas perdas com o Grupo Espírito Santo. Mas Tanure mudou de lado, deu as costas à Aidmin e fechou acordo de não-agressão com a Pharol. Com isso, ganhou tempo para preparar o futuro bote contra o aliado de ocasião – artimanha que já usou em disputas anteriores. “Tanure está sendo bem-sucedido em sua intenção de minar os portugueses”, afirma Aurélio Valporto, vice-presidente da Aidmin.

O plano de Tanure para ficar com a Oi envolve uma estratégia de múltiplas frentes. Em 16 de janeiro, o fundo americano Discovery, seu aliado na tele, comprou 2,02% das ações da própria Pharol, segundo dados da CMVM, o órgão regulador de mercado de capitais português. “Essa participação pode ser maior, já que Tanure costuma usar diversos veículos de investimentos, seus e de aliados, para comprar ações sem ser percebido”, afirma um executivo a par do assunto. Por si própria, a Pharol está longe de ser um investimento atraente. Nos nove primeiros meses de 2016, ela teve um prejuízo de € 56,1 milhões, ante perdas de € 137,3 milhões em 2015. Procurada, a Pharol informou que não comenta investimentos de terceiros. Hoje aliados, Discovery e Tanure já foram rivais. Eles brigaram pelo controle da petrolífera HRT (hoje PetroRio).

Em novembro de 2013, Tanure investiu na empresa fundada por Marcio Mello. Os papéis haviam desabado, caindo mais de 80%, puxadas pela ausência de petróleo em seus principais campos de exploração e pelo prejuízo de R$ 724 milhões no terceiro trimestre daquele ano. Tanure enxergou uma oportunidade e comprou 19% das ações, por R$ 70 milhões. Depois, aliou-se a Mello, a quem o Discovery queria afastar. Tanure partiu para a briga e pediu o afastamento de conselheiros indicados pelo fundo. E também invocou a câmara de arbitragem da BM&FBovespa contra os americanos, que estariam obrigados a lançar uma Oferta Pública de Aquisição (OPA) por ter ultrapassado 20% de participação na petrolífera.

Disposto a entrar: o egípcio Naguib Sawiris está disposto a aportar R$ 1,25 bilhão na empresa, mas seu grupo quer 95% da Oi
Disposto a entrar: o egípcio Naguib Sawiris está disposto a aportar R$ 1,25 bilhão na empresa, mas seu grupo quer 95% da Oi (Crédito:Francesco Garufi/GraziaNeri)

Dois meses depois, Tanure visitou os escritórios do fundo em Nova York, para logo em seguida retirar o pedido de arbitragem. Ninguém se surpreendeu quando Tanure e o Discovery defenestraram Mello da HRT. Quem conhece o assunto avalia que Tanure e o Discovery querem repetir a dose com a Oi, arrancando o controle dos lusitanos. Essa perspectiva assusta muita gente que desconfia das reais intenções do empresário para a companhia. No passado, ao assumir o controle de empresas em dificuldades, ele explorou ativos valiosos e deixou o mico dos grandes passivos nas mãos de outros. Foi assim que Tanure acabou de vez com pelo menos meia dúzia de ícones nacionais, como os jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil, a aérea Varig, e os estaleiros Sade-Vigesa e Verolme-Ishibras. Será a Oi a próxima vítima?

Em recuperação judicial desde junho do ano passado, a Oi deve R$ 50 bilhões a instituições financeiras e investidores, R$ 14 bilhões em multas e pleitos judiciais e R$ 1,4 bilhão a fornecedores. A dívida financeira se divide entre empréstimos bancários e títulos de dívida. Esses papéis estão quase totalmente nas carteiras de fundos especializados em ativos de risco, os fundos abutres. Estes querem trocar suas dívidas – compradas a preço de banana na bacia das almas – por ações da Oi e também buscam assumir o controle da operadora. São assim, inimigos naturais tanto do predador Tanure quanto dos acionistas portugueses.

O ponto fraco dos fundos é que não formam um grupo coeso. A consultoria americana Moelis, que reúne mais de 70 detentores de dívida da Oi, ou 47% dos credores, já apresentou uma proposta de recuperação à companhia. O plano prevê injetar R$ 1,25 bilhão em dinheiro de um novo sócio, o empresário egípcio Naguib Sawiris, dono da telecom Orascom, que opera na África e na Europa. Em contrapartida, a Moelis trocaria R$ 24,82 bilhões de dívida por 95% da companhia. A proposta vale até 30 de março, embora o prazo deva ser esticado – a Moelis não confirma.

Na mira da Anatel: Juarez Quadros, presidente da agência reguladora, afirma que só há dois caminhos: a solução do mercado ou a intervenção
Na mira da Anatel: Juarez Quadros, presidente da agência reguladora, afirma que só há dois caminhos: a solução do mercado ou a intervenção (Crédito:Roberto Jayme/Photonews/AG. ISTOÉ)

Outros fundos têm estratégias diferentes. Os americanos York e Aurelios, e o britânico Attestor, reunidos na G5 Evercore, querem um litígio nos tribunais da Holanda, onde a Oi tem uma subsidiária. “O Aurelios está pagando esses custos. Mas quando os demais fundos forem chamados a contribuir, eles devem sair”, afirma um executivo a par das negociações. Já o fundo americano Cerberus, especializado em empresas com problemas, e representado pela consultoria de reestruturação RK Partners, de Ricardo Knoepfelmacher, está preparando uma sugestão de plano de recuperação da Oi.

O fundo abutre Elliot se dispôs a pagar R$ 9,2 bilhões por 60% da operadora. O tempo joga contra todos eles. “Se nada for feito, a Oi quebra em três anos. Quem vai pagar essa conta?”, questiona um representante de um dos credores. Procuradas, as empresas optaram por não se manifestar. O interesse dos fundos é visto como um bom sinal pela Anatel. “O fato de pelo menos três grupos – Elliot, Cerberus e Sawiris – terem demonstrado interesse na Oi mostra que a empresa tem valor, mesmo com o peso de sua dívida. Nosso foco é que a empresa consiga uma solução de mercado para evitar a intervenção”, diz Quadros, que preside a autarquia.

Segundo Gilberto Kassab, ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicação, não haverá perdão da dívida com a Anatel. “O que estiver ao nosso alcance para apoiar a Oi, excluindo recursos, poderemos fazer”, disse Kassab à DINHEIRO (leia aqui). Segundo a Oi, o presidente da companhia, Marco Schoreder está ajustando a primeira versão do plano de recuperação judicial, que deve ser apresentado até o segundo trimestre deste ano. Se aprovado pelo conselho, o documento segue para o aval dos credores, e, depois, para o juiz Fernando Viana da 7ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Como o caminho é longo, Nelson Tanure terá bastante tempo para arquitetar novas artimanhas corporativas. Procurado pela DINHEIRO, ele não concedeu entrevista até o fechamento desta edição.

DIN1001-Tanure6

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