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A “máfia” indiana

Os indianos são cada vez mais requisitados no Vale do Silício e estão assumindo a liderança de gigantes como Google, Adobe e Microsoft. O que explica isso?

Crédito: Ilustração: Evandro Rodrigues

Os marajás do vale do silício: (da esq. para a dir.), os CEOs Shantanu Narayen, da Adobe, Sundar Pichai, do Google, e Satya Nadella, da Microsoft, na ponte Golden Gate, em São Francisco, nos EUA (Crédito: Ilustração: Evandro Rodrigues)

Em 1993, o indiano Sundar Pichai acabara de se formar em engenharia pelo Instituto de Tecnologia de Kharagpur, o maior e mais antigo centro de formação tecnológica da Índia. Nascido em uma família de classe média, Pichai fez o caminho que muitos indianos têm trilhado, num país com 267 milhões de pessoas abaixo da linha de pobreza. Naquele ano, o recém-formado embarcou para fazer mestrado na Universidade de Stanford, nos EUA. A passagem aérea custou mais do que o seu pai, também engenheiro, ganhava em um ano de trabalho.

O jovem, de 21 anos à época, que só conhecera telefone aos 13, nunca poderia imaginar que seria empregado no Google, em 2004, e revolucionaria a telefonia móvel ao participar do desenvolvimento do sistema Android e do navegador de internet Chrome. Em 2015, Larry Page e Sergey Brian, os criadores do Google, alçaram Pichai ao cargo de CEO da companhia. Pichai é um dos melhores exemplos da ascensão de executivos indianos em grandes companhias americanas, em especial nas localizadas no Vale do Silício, região da Califórnia que abriga os principais nomes do setor de internet e de tecnologia do mundo. Além do Google, outras duas gigantes são comandas por executivos da Índia.

DIN1014-Mafia_indianos2A Microsoft, desde 2015, conta com a liderança de Satya Nadella, que sucedeu ao emblemático Steve Ballmer. A Adobe é chefiada por Shantanu Narayen desde 2007, homem que comandou uma virada impressionante na sua estratégia, transformando-a em uma empresa de computação em nuvem em vez de vender caixinhas de software. “A humildade desses executivos, reflexo de uma infância muitas vezes pobre, e a cultura contribuem para a criação de líderes”, diz Marcelo Zuffo, professor do Departamento de Engenharia de Sistemas Eletrônicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). “A Índia também apostou em um modelo de excelência no ensino superior.”

Os casos de Pichai, Nadella e Narayen não são isolados. De acordo com pesquisas do Instituto Kauffmann em parceria com a Universidade de Berkeley, entre as décadas de 1990 e 2000, a porcentagem de startups de tecnologia criada por indianos no Vale do Silício passou de 7% para 15,5%. Eles, ainda segundo esse estudo, representaram 6% da força de trabalho dessa região. Há vários fatores que ajudaram o avanço indiano nos Estados Unidos. Os 89 anos de colonização inglesa no país contribuíram para fazer o inglês uma língua de ensino obrigatório. Desde a década de 1990, fortaleceu-se uma verdadeira diáspora indiana pelo mundo, devido à falta de espaço no mercado de trabalho local.

O destino, para muitos, foi o Vale do Silício, na Califórnia. O principal precursor dessa invasão indiana nos Estados Unidos tem como símbolo Vinod Khosla, um dos cofundadores da fabricante de computadores Sun Microsystems, que imigrou para o país na década de 1960 – a Sun foi comprada pela Oracle por US$ 7,4 bilhões em 2009. A partir dos anos 1960, os indianos que chegavam em solo americano reuniam-se em grupos de apoio financeiro e de ensino. “Esse movimento ocorreu porque a Índia fomentou, dentro e fora do país, uma forte rede de educação”, afirma Alberto Albertin, professor e coordenador da linha de TI do Mestrado Profissional em Gestão para a Competitividade da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

“Eles conseguiram gerar um ciclo virtuoso de educação, enviando alunos para estudar fora do País.” Essa estratégia fez a Índia formar mão de obra capacitada. De acordo com pesquisa do Fórum Econômico Mundial, a Índia é o quinto país que mais forma engenheiros no mundo. Em 2015, foram graduados 220 mil engenheiros, abaixo apenas de Rússia, China, EUA e Irã. “Há uma interferência positiva do governo, não apenas do ponto de vista educacional, mas no mercado, na geração de emprego e no incentivo ao consumo de produtos no país”, afirma Celso Poderoso, coordenador dos MBAs da Fiap.

A Índia, na visão do coordenador dos MBAs da Fiap, tem feito a lição de casa e começa a atrair de volta para o país mão de obra e a reter talentos. Um exemplo é o número de unicórnios indianos, jargão do setor para se referir as empresas que valem mais de US$ 1 bilhão. Segundo a consultoria americana CB Insights, nove delas nasceram na Índia, atrás de apenas de EUA e China e à frente do Reino Unido. A estimativa é que o setor de tecnologia no país tenha movimentado, em 2016, US$ 160 bilhões, alta de 9,2% em relação a 2015. “A Índia cresce pois tem uma visão de longo prazo, investe em educação e formação das crianças antes de chegar à faculdade”, diz Poderoso.